Por Laelie Machado
Ronaldo “da Vila Curuçá” sempre foi louco por futebol. Desde menino torcia pelo Corinthians e nunca perdeu um jogo sequer em seus 38 anos de vida. Antes de morrer seu pai o ensinou a amar o Timão mais que tudo na vida e dava ao filho camisetas, bandeiras, bonés e todo tipo de souvenirs encontrados no mercado durante sua infância. Infelizmente essa paixão exagerada afetou várias áreas de sua vida, marcada por brigas na escola, demissões por confusão nas empresas que trabalhou e um casamento sem amor. Sua esposa Aurélia não suportava mais ver o marido respirando futebol, mas vive conformada há quinze anos por amor aos dois filhos do casal.
A entrada do Ronaldo “Fenômeno” no Coringão foi a maior alegria que Ronaldo “da Vila Curuçá” poderia ter tido em sua vida. Ele adorava jogar na cara de seus amigos:
- É destino. Realmente faltava um Ronaldo no Corinthians pra homenagear o maior fã do time. O “Fenômeno” então? Nem se fala!!
Seus amigos de bar e de torcida sempre davam corda e ele cada vez que ia assistir um jogo tanto no bar quanto no estádio enchia cada vez mais a cara e brigava com a mulher ao chegar em casa bêbado.
No último domingo, o ingresso para a grande final do Paulistão já estava guardado na carteira:
- Eu não perco esse jogo nem que me paguem! Esse jogo não começa sem o Ronaldo “Fenômeno” e sem o Ronaldo “da Vila Curuçá”!! – gritava ele com seu copo de cerveja na mão para quem quisesse ouvir.
Horas antes do jogo, ele aproveitou para tomar uns copos antes de sair com os amigos em direção ao Pacaembu. Sua esposa inconformada, mas ainda preocupada com o pai de seus filhos tentou alertá-lo:
- Ronaldo!! Vê se não vai dirigir bêbado!! Você pode bater o carro ou ser preso!!
Mas foi nessa que a confusão se instalou. O marido bêbado começou a gritar com a esposa irritada e a vizinhança ouvia os berros da calçada:
- Você não manda em mim!! Eu não vou ser preso coisa nenhuma sua &@#*!%+?>!!!
- Olha lá do que você me chama!! Não tem respeito pela mãe dos seus filhos? Não dá exemplo pra eles?!
Com isso, a hora começou a passar e os amigos de Ronaldo desistiram de esperar a guerra terminar. Foram embora e deixaram Ronaldo pra trás. Quando finalmente Aurélia desistiu de desperdiçar palavras com o marido bêbado, ele saiu batendo a porta e praguejou ao ver que tinha sido deixado para trás. Foi até a garagem, ligou seu Chevette 87 que merecia ir para o “Lata Velha”.
As imagens diante de Ronaldo ficavam cada vez mais embaçadas e tudo estava duplicado. As faixas da marginal do rio Tietê faziam curvas que não existiam e Ronaldo só se deu conta que havia batido num guard rail quando escutou a voz do policial:
- Desce do carro que você vai fazer o teste do bafômetro.
Depois de muitas tentativas, Ronaldo consegue sair do carro e ensaiar uma pose de “ta tudo bem”:
- Eu ‘tô ótimo seu poliça! ‘Tô bem mesmo!! Vou assistir o jogo do curingão no Pacaembúúúúúú!! Timão, e ô!! Timão, ê ô!!
Os policiais nem se deram ao trabalho de realizar o teste do bafômetro. Algemaram o corintiano empolgado e o jogaram na viatura. No caminho para a delegacia, Ronaldo ouvia fogos de artifício ao longe:
- Gooooooooooooollll!! Ééééééééé do Curiiiiiintiaaaaaa!!
Horas mais tarde, na cela da delegacia, Ronaldo se lamentava:
- Mais que droga!! Nem sei o resultado do jogo ainda!! Será que alguém pode me falar? – gritava ele para o corredor vazio – Essas blitz dos poliça nunca funciona e logo hoje eles me pegam!! Não vi o jogo do meu coringão!!! Não vi ele ser campeão!!
Ronaldo estava certo. O Corinthians venceu o Santos por 5 a 2 no total de gols. Ele não viu seu xará “o Fenômeno” jogar. Não viu o show dado por seus amigos de torcida. Na realidade, ele viu que a polícia no Brasil não é de tudo ruim. Ele viu que pessoas que cometem atos que colocam em risco a sociedade – como dirigir embriagado – são penalizadas na lei. Naquele domingo, Ronaldo viu o Sol nascer quadrado.

