MackTutando

1 abril 2009

Tentação aversa às aulas

Filed under: Cidade — MackTutando @ 7:28
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“Não sei se subo para a aula ou se fico sentado no bar com vocês e essa cervejinha”. O estudante de Administração Guilherme de Almeida, 22, dividiu com seus companheiros, sentados à mesma mesa que eu, o que estava lhe incomodando a consciência. “Vou levar mais uma falta e perder os exercícios de revisão para a prova da semana que vem”, acrescentou.

 foto1Logo percebi que o jovem, que recém chegara a um dos bares situados na Rua Maria Antonia, na região central de São Paulo, não era o único a enfrentar o dilema entre diversão a preço de cevada e teorias ditadas em lousas e projetores. Estávamos no fim de mais uma semana exaustiva, rotineira e abarrotada de deveres, trânsito e noites mal dormidas. Conversando com o restante dos meus parceiros de bar, soube que, seja em plena segunda-feira ou na sexta-feira à noite, universitários de todos os cantos da capital repetem o ritual: lotam botecos e botequins que circundam as instituições de ensino superior, onde, com seus amigos e colegas, se reúnem “para jogar conversa fora, relaxar, descontrair” e, de fato, “matar aula”. “Eu sei que a mensalidade é cara, mas a gente precisa de um lugar para esquecer um pouco das obrigações”, pondera Pedro Faria, aluno do curso de Engenharia Mecânica.

 Enganada estava eu quando pensei que a prática de “botecar” entre uma e outra aula é exclusiva dessa nova geração de graduandos. Para alguns, na verdade, a confraternização na mesa de bar é parte essencial da fase universitária de qualquer pessoa. “Isso me inclui também?”, questionei. “Olha, até meu pai saía da aula para tomar cerveja com os amigos dele. E eu aposto que todos já foram pelo menos uma vez para algum desses botecos aqui perto”, diz Faria. Sua amiga, Maria Clara Souza, aspirante a psicóloga, ouviu a declaração e reforçou a teoria da onipresença universitária nesses estabelecimentos – geralmente – de baixo requinte espacial, afirmando que não é preciso consumir bebida alcoólica para estar junto. “Eu, por exemplo, não bebo. Só venho para encontrar meus amigos e fugir da chatice de algumas aulas. É ideal e divertido”, explicou.

 Às sextas-feiras, de fato, é quase impossível evitar que uma leva considerável de alunos troque as carteiras das salas de aula pelas cadeiras de ferro ou plástico do primeiro boteco que oferecer um lugarzinho para se acomodar. O professor de Finanças Alberto Fontes me garantiu entender o lado de seus subordinados, mas acredita que deve ser “pesada” a decisão de trocar um pelo outro. “Sempre foi assim e não acho que vá mudar. Quem tem que dar aula no último dia da semana sabe que vai encontrar a sala vazia ou pela metade. Mas o aluno deve saber quando é hora de parar e levar os estudos a sério”.

 Os entrevistados, cada um com seu copinho de vidro, afirmaram saber de suas responsabilidades para com a universidade, é claro. Mas, unânimes, não resistiram e disseram ser “uma tentação ficar no bar a ter que assistir aulas ou estudar”. No meio dos que estavam ali, notei que a verdadeira e única atenção era voltada para uma loira e, de preferência, gelada. “A cerveja é muito mais atraente e gostosa que meus professores”, brinca o amigo Lucas Marieva, do mesmo curso de Almeida. Encerro minhas anotações e, quando parece que todos estão prontos para ir embora, o jovem chama a atenção de um dos garçons e pergunta: “Desce mais uma loirinha?”. Fiquei mais cinco minutinhos.

Por Carolina Pascoal

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