MackTutando

14 abril 2009

Cristo ou Judas?

Nesta terça, o ex-todo-poderoso delegado e “comandante” da Operação Satiagraha, Protógenes Queiroz sofreu o golpe definitivo: foi afastado da Polícia Federal onde exerceu seu posto de delegado por mais de dez anos.  A determinação foi motivada por um processo disciplinar instaurado no começo deste mês que investiga sua participação em um comício político realizado em Minas. Ele teria feito um discurso exaltando a PF. Ele obviamente nega as acusações e se declara “injustiçado”, mas, se diz sereno com a punição e a pena que lhe foram impostas. Insinuou que está sendo sacrificado por querer defender seu povo, tal como Cristo.

Como se achasse que o público de suas intenções de concorrer as eleições de 2010, ainda que “não agrade a todos”… A decisão essa motivada pelo “clamor popular”, ou seria “de seus irmãos de fé” (?). Especula-se ainda que se filiará no PSOL de Heloísa Helena, com quem mantém um bom relacionamento.

Mas para importantes veículos de comunicação do país, Protógenes é um verdadeiro Judas Iscariotes, que conspirou contra as leis e instituições ao grampear com ou sem ajuda da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) contra autoridades e empresários, entre eles Daniel Dantas que por sua vez se diz um perseguido pela “Guarda Pretoriana” do governo. Até o presidente do STF, Gilmar Mendes, se pronunciou: disse que as operações da Polícia Federal e da Abin fizeram com que sentisse uma séria “ameaça” do Brasil se transformar em um estado policial.

E tamanha preocupação não deixa de ser compreensível, por motivos óbvios. Freqüentemente, dados sigilosos dessas investigações foram vazados propositada e ilegalmente pela imprensa. Várias autoridades foram alvo das apurações, até mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Investigações sobre a Operação Satiagraha, apontam que Protógenes, assim como Judas se vendeu por cinco moedas de prata,  também teria se vendido para aparecer na mídia: na ação em que o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta foi preso, câmeras da TV Globo “atuaram” como cinegrafistas da operação. Protógenes teria até mesmo definido quais ângulos deveriam ser explorados. Arapongas também teriam sido recrutados pelo “super-delegado” para “vigiar” autoridades, ainda que sem objetivos bem definidos. Tamanha devassa, de fato, se revelou uma afronta a ética e a hierarquia do Judiciário. A Constituição Federal foi chicoteada e pregada na cruz.

Por outro lado, muitos populares têm se posicionado a favor do delegado. Na rua, Protógenes é freqüentemente saudado por seus fiéis seguidores como “Delegado do Povo”, e não nega que gosta de ser chamado assim. Afinal, para uma população cansada de pagar tanto para ter tão pouco em troca e sedenta por ver poderosos atrás das grades, operações como essas são necessárias para que se faça uma limpeza definitiva no país. E quem não deve nada à  Deus,  nem à Protógenes, Seu Filho postiço e nem a Justiça dos homens – com ou sem toga – , não deve temer ter alguns  de seus telefonemas grampeados, ter a vida devassada e ver tudo isso ser divulgado ilegalmente, imagine…

O Brasil tem se firmado cada vez mais como uma democracia estável, com instituições sólidas. É uma democracia respeitada dentro e fora do continente. É fato que nossa Carta Magna, no afã de querer defender a todos não defende ninguém e ainda deixa brechas para que filibusteiros e sacripantas tirem inúmeras vantagens. É fato também que faltam leis atualizadas que estejam em sintonia com os dias atuais e também um Legislativo que esteja sintonizado com seu povo. Mas pior que tudo isso é a essa sensação estranha no ar de que a cada dia nos aproximamos da Lei de Talião: “olho por olho, dente por dente” e assim nos transformemos numa Assíria tropical.

Nessa disputa de corações e mentes para determinar se Protógenes Queiroz está mais para Cristo ou Judas, o povo é quem continua levando o malho.

Por Vitor Lillo

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